quinta-feira, 4 de julho de 2013

Plantas carnívoras: Caçadoras em perigo

Fonte: Superinteressante

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Capazes de devorar os insetos que capturam, as plantas carnívoras correm o risco de desaparecer porque não sabem fazer outra coisa. Sua salvação depende do homem.

No reino vegetal existe uma área dominada por criaturas que, aparentemente, contrariam uma norma ditada pela natureza. Trata-se do território das plantas carnívoras, onde o império do verde contra-ataca, vegetais devorando bichos - ou melhor, insetos, as principais vítimas das carnívoras. De fato, são pouquíssimas as que incluem em sua dieta animais de maior porte. Quase todas preferem as delicadas mosquinhas, besouros ou borboletas. A exceção fica por conta da corpulenta Nepenthes rajah que vive em Bornéu, uma das ilhas da Indonésia, no sudeste asiático. Ela consegue capturar e digerir passarinhos, lagartos, sapos arborícolas e até mesmo pequenos roedores. Dentro da grande bola esverdeada que lhe serve simultaneamente de armadilha e estômago, encontra-se com freqüência um impressionante amontoado de ossos.
As que realmente gostam de carne de animais são poucas e raras, mas, ainda assim, andaram atiçando a imaginação dos primeiros exploradores de regiões exóticas. Em romances antigos e em filmes ambientados nas misteriosas selvas tropicais, plantas carnívoras ameaçavam saborear mocinhas indefesas e eram implacavelmente retalhadas por caçadores brancos ou pelo infalível facão de Tarzan, o rei da selva. As apavorantes cenas daqueles filmes não passavam de ficção. Mas ficção inspirada em fatos reais, ou seja, nas verdadeiras proezas que cercam a captura de seres vivos, realizadas pelas plantas carnívoras diante dos arregalados olhos dos exploradores.
Entretanto, nem mesmo uma poderosa bateria de armadilhas biológicas, articulada com uma engenhosidade digna de ficção científica, conseguiu preservar essa anomalia botânica - que são as carnívoras - na luta pela sobrevivência. Várias espécies já demonstram sinais de iminente extinção, depois de terem atingido aquele que pode ser o derradeiro degrau de especialização na longa escada de sua história evolutiva.

Em fósseis do Período Terciário foram encontradas estruturas relacionadas com uma dieta carnívora. O achado demonstrou que o fenômeno existe há pelo menos 65 milhões de anos entre alguns vegetais. É portanto tão antigo quanto o aparecimento dos primeiros grandes mamíferos. O que ainda não está bem esclarecido são as origens de tal fenômeno. A suposição mais aceita é a de que, no início, as plantas apenas aprisionavam temporariamente os seres no interior das folhas sem, no entanto, possuir condições de absorver qualquer coisa que fosse dos minúsculos corpos ali retidos. Com o passar do tempo, naquelas folhas teriam se desenvolvido glândulas capazes de envolver o material capturado com substâncias digestivas, tornando-o parcialmente aproveitável como alimento. A nova dieta então deve ter dotado as primitivas carnívoras de um grande poder de colonização em terrenos de baixo teor de nutrientes minerais. Assim, as plantas passaram a retirar de suas vítimas - através das folhas - elementos orgânicos que compensariam tudo aquilo que não obtinham do solo por meio das raízes.
Essa notável artimanha que à primeira vista parece uma grande conquista do reino vegetal revelou um sério desajuste numa de suas engrenagens: um desequilíbrio causado pela excessiva especialização alcançada por algumas delas, em detrimento do poder de competição frente às outras plantas com as quais disputam os mesmos hábitats. Animais e plantas enfrentam ao longo de suas histórias evolutivas o rigoroso teste da seleção natural e só conseguem superá-lo se apresentarem um desempenho satisfatório em várias modalidades de adaptações.

Algumas plantas carnívoras que desenvolveram em altíssimo grau a capacidade de obtenção de alimento colocaram-se diante da seleção natural como um candidato ao vestibular superpreparado numa única matéria. As desvantagens na competição com outras plantas somadas à reduzida tolerância que têm diante de variações climáticas são fatores suficientes para reprová-las. Porém, tudo isso se processa com muita lentidão e a confirmação de que as carnívoras estão em via de extinção deve-se às observações e aos estudos registrados por especialistas durante séculos.
O primeiro cultivo de que se tem notícia é o de uma carnívora americana na Inglaterra em 1637. Tratava-se de uma Sarracenia purpurea coletada num terreno pantanoso do Estado da Virgínia. Como as demais espécies do gênero Sarracenia, ela exibe um longo tubo perpendicular ao solo, encimado por uma pequena aba ou chapéu. Essa, estrutura não passa de uma folha adaptada à coleta de insetos atraídos pelos odores da farta produção de néctar dessa planta. As paredes internas do tubo permitem que os insetos escorreguem para dentro e sejam digeridos pela ação poderosa das enzimas. Em muitas espécies, a posição inclinada da aba ou chapéu acaba formando uma tampa que impede a penetração da água de chuva e a conseqüente diluição das enzimas digestivas. Mas não é isso o que ocorre com a Sarracenia purpurea.
Ao contrário, sua aba levantada é uma coletora de pingos de chuva e o tubo de captura se transforma num poço repleto de água, um paraíso aquático para certas bactérias que decompõem as carcaças dos insetos que ali morrem afogados. A purpurea se utiliza da ação das bactérias como se elas fossem o seu próprio suco digestivo. Os comprimentos dos tubos coletores das Sarracenia variam bastante. Na espécie leucophila, por exemplo, o tubo atinge quase 1 metro e consegue armazenar centenas de insetos. Quando isso acontece, a estrutura coletora não consegue aproveitá-los e a maior parte apodrece sem ser consumida. Em conseqüência, a planta sofre uma espécie de indigestão. A folha tubular fica amarela, murcha e acaba por se desfazer.
Isso, no entanto, não prejudica a saúde da planta, pois, enquanto um dos tubos coletores entra em colapso, já está se desenvolvendo outro, preparando-se para futuros banquetes. O que mais surpreende nas plantas carnívoras é a movimentação rápida de certos órgãos empenhados na captura das presas. Essa curiosa propriedade, compartilhada apenas por algumas espécies, pode confundir um observador e levá-lo a pensar até que elas tenham algum tipo de sistema nervoso. Mas o que de fato acontece é uma reação em cadeia ao longo dos tecidos da planta, acionada por um estímulo químico ou mecânico. Esta esvazia o conteúdo líquido de certa quantidade de células, fazendo-as murchar com extrema rapidez.
Encurvamentos e flexões que parecem articular-se com o auxílio de dobradiças ocultas são obtidos por esse complexo mecanismo de drenagem celular. Movimentos discretos podem ser observados nas dróseras, carnívoras de pequeno porte que digerem insetos depois de estimuladas por substâncias químicas. Suas folhas possuem delicados tentáculos que as recobrem na parte superior e nas margens. Cada tentáculo é coroado por uma glândula que produz uma gotícula cristalina e traiçoeiramente pegajosa.
Milhares dessas gotículas ficam expostos à luz solar, dando a impressão de que a planta está coberta por um manto de cristais. Essa iridescência atrai os insetos para a armadilha. Uma vez apanhado, os próprios movimentos do bicho para se desvencilhar dos tentáculos fazem com que os mais próximos se curvem sobre ele, ajudando a grudá-lo com mais firmeza. Finalmente, as substâncias químicas do corpo da vítima estimulam as glândulas dos tentáculos a segregar enzimas digestivas em lugar de gotículas pegajosas e a dissolver as partes tenras do animal. Mais impressionante ainda é o mecanismo de captura encontrado nas dionéias. Suas folhas se fecham como se fossem duas metades de uma concha aprisionando o inseto com um movimento de dois décimos de segundo. É espantoso que com todo esse arsenal de arapucas as plantas carnívoras não tenham se tornado dominantes num planeta tão superlotado de minúsculos insetos.
Se, para algumas delas, a extrema especialização acabou significando mais um risco de extinção do que uma triunfante técnica de adaptação, hoje suas perspectivas de vida parecem muito mais promissoras. Isso se deve à atuação da espécie humana, que, ao se sensibilizar por essas sofisticadas caçadoras do mundo verde, passou a protegê-las em jardins botânicos e estufas, cultivando-as em todo o mundo. Enquanto existirem os clubes e as associações dos admiradores das plantas carnívoras, pode-se afirmar que ironicamente elas acabaram encontrando nos homens - e não nos insetos - a esperança na luta pela sobrevivência.

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